Fazer muita faxina pode ser perigoso para os pulmões
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Fazer muita faxina pode ser perigoso para os pulmões

Cientistas noruegueses publicaram os resultados de um estudo sobre os malefícios desconhecidos de substâncias aparentemente inofensivas: produtos de limpeza. Usados de maneira intensiva, eles têm os mesmos efeitos na capacidade pulmonar feminina que um consumo regular de tabaco.

“Fumar mata”. O aviso já faz parte há alguns anos dos maços de cigarro, cujos compostos tóxicos têm se mostrado especialmente nocivos para o organismo, principalmente pulmões. Prejuízos à saúde incontestáveis, que agora também são atribuídos a produtos com aparência menos nociva: detergentes. Um novo estudo publicado no American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine estabelece uma ligação entre a prática intensiva da faxina e problemas pulmonares.

“Comparável a um consumo de pouco menos de vinte maços-anos”, o equivalente a um maço de vinte cigarros por dia durante vinte anos. Esse é o paralelo feito pelos pesquisadores entre o estado pulmonar de faxineiros e de fumantes. A limpeza profissional pode ser tão prejudicial para os pulmões quanto o consumo regular e prolongado do tabaco.

Para chegar a essa conclusão inesperada, os cientistas da Universidade de Bergen, na Noruega, se basearam em dados da European Community Respiratory Health Survey, ECRHS, uma pesquisa feita de 1992 a 2012 com mais de 6.200 pessoas de toda a Europa. Com idade entre 20 e 40 anos, os participantes do estudo possibilitaram, ao longo de duas décadas de acompanhamento, a formação de uma das mais importantes bases de dados sobre os estado das funções respiratórias de uma população.

Degradação das capacidades respiratórias femininas

Entre outras características, a pesquisa se concentrou em um critério: o “volume expiratório máximo no 1º segundo”, ou VEMS. Uma medida que permite quantificar o volume de ar expulso no primeiro segundo de uma expiração rápida. Resultado, para as mulheres que trabalham como faxineiras, essa quantidade diminui cerca de 4 mililitros (mL) a mais por ano se comparado com mulheres que não fazem atividades de limpeza.

Mesmo entre as que não são profissionais ocorre uma tendência parecida, com uma perda anual de pouco mais de 3,5mL a mais comparado a quem não é muito adepto de faxina. Outro parâmetro estudado, a capacidade vital forçada ou CVF, mede o volume de ar total que uma pessoa é capaz de expulsar em uma expiração. E novamente, as profissionais da faxina se mostraram mais comprometidas, com uma perda de capacidade respiratória de mais de 7mL a mais por ano.

Quase o dobro das mulheres que fazem limpeza em casa, cuja CVF diminui cerca de 4mL por ano a mais que aquelas que evitam a faxina. Enfim, entre todas as usuárias de produtos de limpeza – domésticas ou profissionais – a asma também se mostrou mais frequente, com uma prevalência de 13%, contra pouco mais de 10% entre as mulheres que não usam tais produtos.

Ação a longo prazo

Para explicar esses efeitos preocupantes dos produtos de limpeza nas capacidades respiratórias humanas, os pesquisadores lançaram uma hipótese. “Receamos que esses produtos químicos, ao provocar pequenos danos nas vias respiratórias continuamente, ano após ano, possam acelerar a taxa de degeneração das funções pulmonares que aparecem com a idade”, explicou a principal autora do estudo Cecile Svanes, Professora no Centro de saúde internacional da Universidade de Bergen.

A especialista confessa que ficou, em um primeiro momento, surpresa com os resultados. Um pouco menos, entretanto, depois de alguma reflexão... “Quando você pensa que inalamos pequenas partículas de produtos detergentes projetados para limpar o chão e não nossos pulmões, talvez não seja tão surpreendente assim”, afirma Cecile Svanes.

Um estudo limitado mas que promete soluções

O estudo realizado pelos pesquisadores noruegueses ainda tem algumas limitações. A primeira é o baixíssimo número de homens incluídos nas estatísticas. Uma ausência que não permitiu que os pesquisadores tirassem conclusões precisas quanto aos efeitos dos produtos de limpeza sobre a saúde pulmonar masculina.

Outro ponto problemático: o pequeno número de mulheres do painel que não praticavam nenhuma atividade de limpeza, uma categoria considerada um “grupo socioeconômico restrito”, segundo os autores do trabalho. De qualquer forma, o estudo tem o mérito de ter apresentado um problema de saúde pública até então pouco tratado na literatura científica.

“A importante mensagem desse estudo é que a longo prazo, os produtos químicos de limpeza provavelmente provocarão danos substanciais aos seus pulmões”, avisa Cecile Svanes, que termina com um conselho de bom senso: “Esses produtos químicos quase sempre são inúteis, tecidos de microfibra e água são mais do que suficientes para a maioria dos casos”. “Fumar mata”, “limpar demais” também...

Escrito por Pedro Souza
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